Vitorino Nemésio – 70 anos de “Mau Tempo no Canal”

Comemora-se este ano a passagem do septuagésimo aniversário da primeira edição do romance Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio (1901-1978), poeta, romancista, professor, filólogo, investigador, crítico, jornalista, cronista, intelectual, historiador da literatura e da cultura, comunicador televisivo, biógrafo, epistológrafo e… tudo. Encontra-se, neste momento, patente na Biblioteca Pública da Horta, uma muito interessante exposição alusiva à efeméride.

Ao longo dos anos, a referida obra foi editada mais nove vezes e traduzida em três ocasiões: “Le Serpent Aveugle” (1953), “Gros Temps Sur l´Archipel” (1988) e “Stormy isles: an Azorean Tale” (1998).

A ação do romance, que tem por cenário as ilhas do Faial, Pico, São Jorge e Terceira, tem o seu núcleo de intriga desenvolvido na Horta, cidade onde Vitorino Nemésio concluiu, em 1918, o Curso Geral dos Liceus como aluno externo. 

A permanência de Nemésio na Horta haveria de marcar profundamente o escritor adolescente (então com 16 anos de idade). Recorde-se que Mau Tempo no Canal evoca um período (1917-1919) que coincide em parte com essa estada.

Em 1918, em pleno final da Primeira Grande Guerra, a Horta vivia os resquícios de uma prosperidade económica iniciada em meados do século XIX, pela família Dabney, com as riquezas que provinham da laranja, do vinho, da baleia e do carvão. Possuindo um comércio marítimo intenso e uma impressionante animação noturna, a cidade era então porto de escalas obrigatório, local de reabastecimento de frotas e de repouso da marinhagem. As suas ruas fervilhavam de militares, marujos, gente de todas as nacionalidade e raças. Além disso estavam instaladas na Horta as companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos, que convertiam a cidade num “nó de comunicações” mundiais. De resto os ingleses, os americanos, os alemães e os italianos dos “Cabos” haveriam de deixar profundas influências sociais, culturais e desportivas no meio faialense.

Deixando a então mais pacata cidade de Angra do Heroísmo, é este ambiente cosmopolita que Nemésio vem presenciar, o que terá contribuído, decisivamente, para que ele viesse mais tarde a escrever essa obra mítica e irrepetível que dá pelo nome de Mau Tempo no Canal, publicado em 1944 mas trabalhado desde 1938.

Com abundante informação sobre os Açores, e atravessado por muitas e múltiplas personagens, Mau Tempo no Canal dá conta da história de Margarida Clark Dulmo, pertencente à aristocracia decadente do Faial. Margarida é o epicentro de relações amorosas desencontradas e frustradas, nenhuma delas capaz de lhe proporcionar a realização das suas opções existenciais, sistematicamente negadas pelas convenções sociais, impostas pelo ambiente moral burguês, ou mesmo determinadas por uma fatalidade que ordena as histórias de amores recalcados e de vidas amordaçadas ao longo das gerações das famílias Clark e Garcia.

Obra-prima pela densidade e perfeição da sua forma e estrutura, pela riqueza psicológica das suas personagens e pela maneira como o autor desenvolve aspetos históricos, culturais, sociais, míticos, etnográficos e científicos relacionados com os Açores, Mau Tempo no Canal é hoje considerado um dos melhores romances do século XX, sendo, de acordo com José Martins Garcia, “a síntese de todas as ficções de Nemésio e o remate de toda a idiossincrasia açoriana”.

António Machado Pires, nemesianista de primeiríssima água, lembrava recentemente que, segundo vasco Graça Moura, as três obras-primas da ficção portuguesa são: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, Os Maias, de Eça de Queiroz e Mau Tempo no Canal.

Nunca é tarde para (re)ler o grande romance da açorianidade – que rima com universalidade.

 

                                                                                                            Victor Rui Dores

Passa pela tua biblioteca e boas leituras

 

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