Identificar argumentos (premissas e conclusão) – Parte 2

Os argumentos têm como objetivo justificar a verdade de uma afirmação. Mas, para que isto aconteça, é necessário indicar as razões em que podemos basear-nos para pensar que a afirmação é verdadeira. As razões constituem as premissas do argumento; a afirmação que se pretende justificar é a conclusão. Chamamos conclusão a esta afirmação porque o argumento nos fornece as razões em que nos apoiamos para concluir que esta afirmação é verdadeira. Assim, nos exercícios que se seguem, o objetivo é indicar as premissas e a conclusão de cada argumento. Para isso, fazemos a lista de todas as premissas e numeramos cada uma (1, 2, 3, etc.). No final desta lista, colocamos a conclusão do argumento antecedida pela palavra portanto.

Com o objetivo de ilustrar este procedimento, o exercício 1 já está resolvido. Trata-se de repetir este procedimento nos restantes exercícios. No final da página são dadas as soluções de cada exercício.

Exercício 1

Leia o diálogo subsequente e identifique as premissas e a conclusão do argumento que nele ocorre.

Manuel: Olá, Joana. Tenho dois bilhetes para a tourada. Gostaria de te convidar a vires comigo.

Joana: Nem pensar, Manuel, lamento. As touradas são moralmente reprováveis.

Manuel: Reprováveis? Por que dizes isso?

Joana: Bem, em primeiro lugar, porque as touradas fazem sofrer os animais sem necessidade. E depois, porque fazer sofrer os animais sem necessidade é moralmente reprovável.

Manuel: Parece-me que percebi o argumento. Mas não sei se concordo.

Solução

Note que a conclusão ocorre na segunda fala (Joana). Podemos saber que é assim porque na fala seguinte o Manuel pede à Joana para se justificar (por que dizes isso?). É o que ela fará em seguida. As razões em que a Joana se baseia são duas. A solução do exercício é a seguinte:

(1) As touradas fazem sofrer os animais sem necessidade.

(2) Fazer sofrer os animais sem necessidade é moralmente reprovável.

Portanto, as touradas são moralmente reprováveis.

Exercício 2

Leia o texto subsequente e identifique as premissas e a conclusão do argumento que nele ocorre.

Se os budistas têm razão, os cristãos estão enganados. Se os cristãos não estão enganados, os budistas não têm razão. Por isso, os budistas têm razão se e só se os cristãos estão enganados.

Exercício 3

Leia o texto subsequente e identifique as premissas e a conclusão do argumento que nele ocorre.

Maria vai ao cinema ou ao teatro. Se for ao cinema, então a mãe empresta-lhe o carro. Se for ao teatro, a mãe empresta-lhe o carro. Assim, a mãe empresta-lhe o carro.

Exercício 4

Leia o diálogo subsequente e identifique as premissas e a conclusão dos dois argumentos que nele ocorrem.

Laura: Não concordas com a minha perspetiva. Muito bem. Mas gostaria que te explicasses.

Manuel: Serei o mais claro possível. As touradas não violam os direitos dos animais. Isto porque as touradas apenas violariam os direitos dos animais se os animais tivessem direitos. Contudo, os animais não têm direitos (não são seres racionais).

Laura: A obrigação de não tratar cruelmente os animais existe ainda que não lhes reconheçamos direitos.

Manuel: Que queres dizer? Dito assim, sem mais explicações, não percebo onde queres chegar.

Laura: Tratar cruelmente os animais torna-nos piores pessoas (reforça em nós a tendência para tratar de modo semelhante  os seres humanos). E nós temos a obrigação de nos tornarmos melhores pessoas, e não piores. Portanto, meu caro Manuel, temos a obrigação de não tratar cruelmente os animais.

Exercício 5

Leia o diálogo subsequente e identifique as premissas e a conclusão dos dois argumentos que nele ocorrem.

Joana: Não são apenas as touradas que me parecem reprováveis. Também é moralmente reprovável os circos manterem animais presos apenas para nosso divertimento.

Manuel: Discordo totalmente. Discordo ainda mais neste caso do que no caso das touradas.

Joana: Muito bem. Queres explicar?

António: Repara. Se os animais fossem racionais, mantê-los em cativeiro contra a sua vontade violaria os seus direitos. Mas os animais não são racionais. Portanto, manter os animais em cativeiro para serem usados nos circos não viola qualquer direito.

Laura: Não é evidente que só tenhamos obrigações morais para com os outros seres racionais.

António: O que queres dizer com isso?

Laura: Deixa-me esclarecer. É moralmente errado manter animais presos nos circos porque todos os seres capazes de sentir dor, mesmo que não sejam racionais, sofrem desnecessariamente quando são mantidos em cativeiro contra a sua vontade. Ora, é moralmente errado infligir dor desnecessariamente seja a quem for.

Exercício 6

Leia o diálogo subsequente e identifique as premissas e a conclusão do argumento que nele ocorre.

Manuel: Confesso que os teus argumentos me estão a obrigar a pensar. Mas, de momento, a minha principal preocupação são as consequências do aquecimento global.

Joana: Concordo. Ou alteramos depressa os nossos padrões de consumo ou arriscamo-nos a deixar em herança às futuras gerações um planeta em risco de esgotamento.

Manuel: Não podemos deixar uma herança tão indesejável como essa aos nossos filhos e netos.

Joana: Concordo. Portanto, temos de mudar os nossos hábitos de consumo rapidamente.

Exercício 7

Leia o texto subsequente e identifique as premissas e a conclusão do argumento que nele ocorre.

Se permitirmos a utilização de técnicas de manipulação genética para prevenir certas doenças, em breve estaremos a usá-las para decidir o sexo das crianças ou a cor da pele. Mas, nesse caso, passamos a viver num mundo profundamente racista. E, nesse caso, não é de admirar que tudo termine num novo Holocausto. Consequentemente, é necessário proibir a manipulação genética para efeitos terapêuticos.

Exercício 8

Leia o diálogo seguinte e identifique o argumento nele proposto.

Ana: O adultério é condenável porque, em geral, quem o pratica está a violar uma obrigação. E violar uma obrigação é sempre moralmente condenável. Não te parece?

Rui: Concordo totalmente.

Exercício 9

Leia o diálogo seguinte e identifique o argumento nele proposto.

Laura: Há cada vez mais ideologias extremistas que põem em causa os valores democráticos.

António: Concordo.

Laura: Os direitos humanos são respeitados se e apenas se a liberdade individual não for abolida. Se a liberdade individual for abolida, mais pessoas serão presas por razões políticas. Logo, há respeito pelos direitos humanos ou há mais presos políticos.

António: Partilho as tuas preocupações, Laura.

Exercício 10

Leia o texto subsequente e identifique as premissas e a conclusão do argumento que nele ocorre.

Se tudo o que existe é constituído por matéria, as leis da natureza comandam o mundo. Se as leis da natureza comandam o mundo, os seres humanos não são livres. Portanto, se os seres humanos não são livres, então tudo é constituído por matéria.

Soluções

Exercício 2

(1) Se os budistas têm razão, os cristãos estão enganados.

(2) Se os cristãos não estão enganados, os budistas não têm razão.

Portanto, os budistas têm razão se e só se os cristãos estão enganados.

Exercício 3

(1) Maria vai ao cinema ou ao teatro.

(2)Se for ao cinema, então a mãe empresta-lhe o carro.

(3) Se for ao teatro, a mãe empresta-lhe o carro.

Portanto, a mãe empresta-lhe o carro.

Exercício 4

Argumento 1 (Manuel)

(1) As touradas apenas violariam os direitos dos animais se os animais tivessem direitos.

(2) Os animais não têm direitos (não são seres racionais).

Portanto, as touradas não violam os direitos dos animais.

Argumento 2 (Laura)

(1) Tratar cruelmente os animais torna-nos piores pessoas.

(2) Temos a obrigação de nos tornarmos melhores pessoas, e não piores.

Portanto, temos a obrigação de não tratar cruelmente os animais.

Exercício 5

Argumento 1 (Manuel)

(1) Se os animais fossem racionais, mantê-los em cativeiro contra a sua vontade violaria os seus direitos.

(2) Os animais não são racionais.

Portanto, manter os animais em cativeiro para serem usados nos circos não viola qualquer direito.

Argumento 2 (Laura)

(1)Todos os seres capazes de sentir dor sofrem desnecessariamente quando são mantidos em cativeiro contra a sua vontade.

(2) É moralmente errado infligir dor desnecessariamente seja a quem for.

Portanto, é moralmente errado manter animais presos nos circos.

Exercício 6

(1) Ou alteramos depressa os nossos padrões de consumo ou arriscamo-nos a deixar em herança às futuras gerações um planeta em risco de esgotamento.

(2) Não podemos deixar uma herança tão indesejável como essa aos nossos filhos e netos.

Portanto, temos de mudar os nossos hábitos de consumo rapidamente.

Exercício 7

(1) Se permitirmos a utilização de técnicas de manipulação genética para prevenir certas doenças, em breve estaremos a usá-las para decidir o sexo das crianças ou a cor da sua pele.

(2) Se usarmos técnicas de manipulação genética para decidir a cor da pele das crianças, passaremos a viver num mundo profundamente racista.

Portanto, se não queremos viver num mundo profundamente racista, é necessário proibir a manipulação genética para efeitos terapêuticos.

Exercício 8

(1) Quem pratica adultério está a violar uma obrigação.

(2) Violar uma obrigação é sempre moralmente errado.

Portanto, o adultério é moralmente errado (ou condenável).

Exercício 9

(1) Os direitos humanos são respeitados se e apenas se a liberdade individual não for abolida.

(2) Se a liberdade individual for abolida, mais pessoas serão presas por razões políticas.

Portanto, há respeito pelos direitos humanos ou há mais presos políticos.

Exercício 10

(1) Se tudo o que existe é constituído por matéria, as leis da natureza comandam o mundo.

(2) Se as leis da natureza comandam o mundo, os seres humanos não são livres.

Portanto, se os seres humanos não são livres, então tudo é constituído por matéria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *