Da poética de Mário Machado Fraião

 

Poeta, professor e investigador, o faialense Mário Machado Fraião (1952 – 2010) cedo aprendeu e apreendeu o sonho da viagem, um pouco à semelhança de sua tia Otília Frayão, que no Faial poetou e que, fugindo à clausura da ilha nos idos anos 50 do século passado, partiu para longe, já que a errância fora o seu destino e a sua forma de perseguir a felicidade e o sonho.

Mário Machado Fraião também deixou a ilha e a sua poesia é, à sua maneira, desejo de aventura, aspiração de fuga, de viagem. Trata-se de uma poética que descobre o mar na essência da visão do mundo. As ilhas do Faial e do Pico deixaram, neste autor, uma memória indelével e retroactiva, sendo a Horta o epicentro do seu imaginário, isto é, o seu roteiro sentimental e afectivo, disso dando conta as obras poéticas que nos deixou: Todas as filarmónicas perdidas e um poema por dizer (1980); As cordas e os metais, o sabor da paisagem (1985); Enquanto o mar se renova (1987); Os navios no horizonte (1988); As ruas demoradas (1989); Poemas do mar atlântico (1991); Os barcos levam nomes de mulheres (1995) e, postumamente, Antes que o sol acabasse (2011).

A poética de Mário Machado Fraião poderá ser dividida em 4 grandes áreas temáticas:

  1. Memória insular, enquanto espaço / tempo (o dos verdes anos) definitivamente perdido e irrecuperável; o poeta revisita lugares, rituais, momentos fugazes, num discurso poético marcado em boa parte por um “realismo urbano” que faz da enumeração e da justaposição discursiva uma das técnicas de convocação de um tempo demorado e suspenso.
  2. Melancolia da distância. Fora da sua ilha, o poeta a ela regressa pelos retroactivos da memória. Ele carrega a ilha perdida e mitificada, sendo a ilha a casa, o espaço primordial, imagético e afectivo, a lembrança indelével de pessoas, coisas e lugares, ou seja memória do vivido e do sentido.
  3. Da ilha para o Mundo. A poesia de Mário Machado Fraião não se fica ensimesmada na ilha nem cai nas malhas de um certo impressionismo contemplativo da paisagem insular. Trata-se de uma poética que fica entre a ilha e a viagem, ou seja, uma poética que partindo da ilha viaja para fora dela, em busca de outros horizontes universais.
  4. A viagem mil vezes retomada. O sujeito do poema deambula por vários espaços geográficos, fixa emoções e sensações, vagueia por sentimentos e estados de alma que ficaram enraizados na sua lembrança nostálgica, navega sonhos e memórias porque sabe que só o sonho pode dar sentido à vida. Os “barcos” e os “navios” são os símbolos dessa errância e dessa mundividência. Por outro lado, essa viagem é também a viagem do corpo, a evocação de raparigas e mulheres que apetecem como barcos. Estamos perante um discurso amoroso, a roçar o erótico – o de um amor interiorizado e pressentido.

Eis uma escrita poética de depurada limpidez e de uma muito bem conseguida sonoridade: “Estes navios/ no amplo estuário/ têm as suas proas apontadas/ ao meu coração”…

Com o mar a perder de vista, os poemas de Mário possuem um brilho intenso (o sol arde e preenche o poema), um enfocamento visual que dá a esta poesia um toque de impressionismo, de beleza estética que a toma muito pictórica e plasticamente muito bela.

Em todos os poemas, Mário fala da integridade viva do real, da sua essência infinita e concreta que o habita, assombra, fascina comove e renova. Refira-se que ele sempre assumiu um compromisso de paixão para com a escrita, lapidando as palavras exactas e essenciais, nelas buscando os ritmos e as pulsações, os silêncios e as sonoridades. O que talvez bastasse para provar, se necessário fosse, que estamos perante uma das vozes mais significativas da nossa melhor poesia.

Victor Rui Dores

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